terça-feira, 14 de junho de 2016

Frio que dói

Muito tem se falado do frio e das suas consequências para as pessoas e animais que se encontram em situação de rua. Se é cruel e desumano pensar neles enfrentando as temperaturas extremamente baixas nas ruas, também precisamos voltar olhares mais críticos para os animais que estão confinados em abrigos, que podem sofrer muito mais, dependendo do local que se encontram acolhidos.
Os cães que vagam pelas ruas têm como buscar um local mais aquecido, muitas vezes ficam embaixo dos carros aproveitando o calor do motor, ou dormem junto com o lixo, papelões e sucatas. Alguns são amparados por moradores de rua, se aproximam de fogueiras improvisadas feitas por essas pessoas e se nada disso acontecer, ainda tem a opção de passar a noite correndo e andando para se aquecerem. Muitos cães nessa situação tem o hábito de andar durante a noite e dormir durante o dia no sol para se manterem quentes. Apesar da vida miserável, da fome e do frio, esses animais podem se locomover e buscar socorro. Com sorte podem até encontrar uma garagem solidária para passar a noite ou o apoio de uma pessoa do bem que condoída pela situação os ampare.
E os cães confinados? A realidade da maioria dos abrigos é muito pior do que essa descrita acima, se é que isso é possível. Muitos cães ficam em baias minúsculas com chão de cimento ou piso frio. Como o nome já diz, a friagem que vem desse chão é insuportável e desencadeia várias doenças, entre elas a famosa tosse de canil e pneumonias. Poucos abrigos conseguem proteção de madeira, pallets ou algo parecido. Se colocam cobertores, eles não permanecem esticadinhos a noite toda...em pouco tempo os cães deixam o cobertor todo embolado, isso quando não é rasgado e picado, devido ao stress do animal. Muitas vezes a opção são jornais e papelão que se misturam com a urina do cão e ficam encharcados... e é em cima disso que eles vão passar a noite. Alguns locais são pequenos e o cão não consegue se mexer a ponto de se aquecer. E também não pode sair daí para procurar um local mais quente, já que está preso. A maioria dos abrigos só oferecem uma porção diária de ração, o suficiente para manter o animal vivo. Com a atual crise e a superlotação, essa ração com certeza não é uma quantidade generosa, então ele ainda tem fome e a fome faz com que o animal sinta mais frio.
Esse é o retrato das consequências do frio para os animais abandonados, estejam eles nas ruas ou em abrigos. Se fotos de animais de rua congelados circulam pela internet e chocam, acreditem que muitos animais também estão morrendo de frio em abrigos, sem nenhum alarde ou divulgação.
Cruel? Desumano? Mas muito real. Nenhum abrigo, lar temporário, ou mesmo nossos Quintais conseguem prestar um bom acolhimento a um cão com essas baixas temperaturas. A medida paliativa que adotamos no Cão sem Fome, além dos cobertores que duram apenas alguns dias e tem que ser repostos várias vezes durante o inverno, são as roupas para os cães que recebemos de doação, mas ainda assim são poucas perto da enorme necessidade. Corta o coração ter que escolher quem vai vestir uma roupa e quem vai passar frio, mas não há roupas para todos.
No nosso caso existe um olhar mais atento do Protetor, mas as condições são precárias e ainda estão longe do ideal. Aumentamos a quantidade de ração, quando conseguimos mais doações, para que os animais de barriga cheia sintam menos a queda da temperatura, mas o nosso consumo mensal já é de 4 toneladas. Um mísero aumento de 10% na ração, que nem dá para sentir no organismo já significa mais 400Kg! Um gasto a mais, muito pesado em uma época de poucas doações.
Todos abrigos estão superlotados e os poucos recursos arrecadados estão sendo usados para os animais não passarem fome. A situação é alarmante e não estamos dando conta do tamanho do abandono que estamos presenciando. Precisamos de políticas públicas sérias para conter e punir o abandono e os maus tratos, ênfase na castração para diminuir a população de cães e gatos e uma conscientização da sociedade em prol da adoção de animais abandonados.
Abrigo não é solução e quando passamos por uma situação como essa é que percebemos o quanto somos vulneráveis e como nossos recursos são míseros perto da grande necessidade que bate à nossa porta.
Os animais de rua, ou de Abrigos só podem contar com a solidariedade das pessoas e todos precisam muito de ajuda estejam nas ruas ou não.

Se quiser ajudar a amenizar o sofrimento de animais que estão na rua você pode:
- Abrigar um animal provisoriamente para ele passar a noite na sua garagem ou no seu estabelecimento comercial.
- Colocar uma roupa em um animal de rua.
- Alimentar um animal abandonado na rua.
- Promover na sua rua o acolhimento de um cão comunitário.
- Colocar casinhas em praças, terrenos, ou doar casinhas para locais como postos de gasolina que se prontifiquem a dar suporte para animais da região.
- Ajudar moradores de rua que tenham cães com castração, mantas, roupas e ração.

Para ajudar cães em abrigos você pode doar:
- Ração
- Jornais ou Papelão
- Cobertores e toalhas
- Roupas de cães (vários tamanhos)
- Casinhas
-Tapetes e placas emborrachadas

Para direcionar suas doações para o Cão sem Fome acesse nosso site onde você encontra os endereços dos nossos postos de coleta: http://projetocaosemfome.com/coletores-de-racao/
Vamos nos unir contra o frio, isso dói na alma!
Proteja um animal carente.






terça-feira, 3 de maio de 2016

Campanha de Inverno


Começou a Campanha de Inverno para ajudar nossos cãezinhos.
A vida em qualquer abrigo não é nada fácil e no inverno as coisas ficam ainda piores.
Os animais dormem no chão, ou no máximo em cima de pallets de madeira e por isso precisamos aquece-los.

Você pode ajudar doando:
- Jornal
- Cobertores, lençois e toalhas
- Caminhas e colchonetes que seus cães não usam mais
Veja os endereços para entregar sua doação clicando aqui

Ou você pode doar mantas virtuais clicando no botão que aparece do lado direito do nosso site e comprar uma manta que irá aquecer um cãozinho carente. (Atenção: Na hora de preencher o cadastro, você deve colocar o seu endereço, mas a manta irá para o Cão sem Fome,)

Se você quiser pode falar conosco também pelo email caosemfome@gmail.com

Vamos aquecer um peludo nesse Inverno?!

terça-feira, 5 de abril de 2016

Resultado da Campanha de Páscoa


Com o aumento da ração em média de 30% estamos com muitas dificuldades de manter nossos animais. Por isso lançamos em março a Campanha de Páscoa que arrecadou 800Kg de ração.
Desses, 300Kg foram entregues no Quintal da D Silvia que hoje está com quase 70 animais e 500kg foram doados para o Quintal da D Cecilia que abriga 45 cães e 25 gatos.

Obrigada a todos que doaram ração e participam de nossas Campanhas. A generosidade de vocês nos ajudam a salvar vidas!

Vejam as fotos da entrega no Quintal da D Cecilia em 03 de abril/16
Clique aqui para ver mais fotos 










No dia 25 de março/16 a entrega foi no Quintal da D Silvia e fez a festa dos cãezinhos que moram lá.
Vejam o depoimento da Protetora D Silvia no nosso site: Clique aqui!










Essa é a sua doação chegando em quem mais precisa.
Você pode doar ração a qualquer momento usando os botões que se encontram na lateral direita deste Blog.
Muito Obrigada!

terça-feira, 1 de março de 2016

Campanha de Páscoa 2016 Cão sem Fome


Começou a Campanha de Páscoa para ajudar os peludinhos do Cão sem Fome!
Infelizmente a ração subiu 30% e estamos passando por dificuldades para alimentar nossos 500 animais.
Contamos com a solidariedade de vocês! Se cada um ajudar com um pouquinho teremos um mês de barriguinhas cheias.
Essa Campanha será diferente: Conseguimos uma negociação direta com a fábrica e podemos comprar ração a um preço bem abaixo do mercado, por isso o objetivo será arrecadar o dinheiro necessário para comprar o máximo de ração que conseguirmos.
São 3 opções de doação:
R$10,00 corresponde a 2Kg de ração
R$20,00 corresponde a 4Kg de ração
R$50,00 corresponde a 10Kg de ração
Você pode doar através dos botões de Páscoa que estão do lado direito do nosso blog (será redirecionado para o Pag Seguro) ou depositar na conta:
Santander
Ag 3989
Conta corrente 130001486
Arte Dobrada Com Ass e Eventos

Vamos publicar no facebook o resultado dos valores arrecadados.
Outra forma de ajudar é deixar ração, produtos de limpeza e jornais nos nossos Pets parceiros:

Agora só falta a sua contribuição para a gente fazer uma grande corrente do bem e deixar 400 cãezinhos  e 100 gatinhos felizes e de barriguinha cheia!
Quer ajudar de outra forma? Entre em contato com caosemfome@gmail.com

Muito obrigado!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Abandono – Faça parte da solução e não do problema.

No nosso último texto abordamos o problema do abandono e hoje quero falar sobre o que pode ser feito por pessoas de bem, que querem ajudar os animais.
Quando uma pessoa encontra um animal com problema o que ela faz?
Muitos fotografam e postam nas redes sociais, com pedidos de socorro.
Outros ligam para Protetores ou ONGS irem lá resolver o problema
Das duas formas a pessoa continua sendo um ser passivo à situação, já que quer passar o problema adiante e não resolvê-lo. Ajuda o animal aquela pessoa que toma uma atitude, que faz o que tem que ser feito, mesmo que dê trabalho e gaste seu tempo e dinheiro.
No primeiro caso, é covardia fotografar um animal acidentado, mutilado, ou faminto ao invés de acudir. Chamo isso de “Síndrome de Sebastião Salgado”, fotógrafo que saiu pelo mundo retratando pessoas em países em conflito. Se ele pode, né...porque eu não posso? Tenho um celular e uma desgraça na minha frente...basta fotografar e postar no facebook. Vão aparecer centenas de comentários do tipo “que dó” e “ coitado”, mas realmente, você acha que alguém vai sair da sua casa para ir até o tal endereço resgatar o animal, se você mesmo não o fez?
No segundo caso, a pessoa entra em contato com Protetores e ONGS. Se você acha que o Protetor pode fazer alguma coisa, acredite, você pode também.  Os Protetores e ONGS estão superlotados, graças às pessoas que abandonam, maltratam, mas também graças a todos que empurram mais e mais animais para eles, às custas de chantagens emocionais do tipo “ Se você não socorrer ele vai morrer”, ou “ Está na rua”, ou “ Vai pra rua se você não ficar com ele”. Ligar para Protetores para empurrar mais animais, não é fazer o bem, nem para o Protetor, nem para o animal.
Você pode achar que tirando o animal das ruas, fez a sua parte e salvou uma vida, mas está enganado. O problema nem começou ainda! Tirar um animal das ruas é arcar com uma responsabilidade que vai durar até o fim da vida daquele animal. Essa responsabilidade envolve custos (comida, castração, vacinas, tratamentos, remédios, veterinários...). Há pessoas que dizem que vão ajudar financeiramente, mas será que realmente sabem o que estão falando? Vão ajudar financeiramente pelos próximos 10 anos? O que acontece na prática é que as pessoas acabam ajudando um ou dois meses e depois somem... e o Protetor fica com toda a responsabilidade sobre aquele animal.
Não bastasse isso, há o problema de espaço. Quando as pessoas falam que moram em um apartamento pequeno, portanto não podem ficar com o cachorro, demonstram uma completa ignorância do que é um Abrigo ou a casa de um Protetor. São lugares minúsculos, onde cães ficam confinados em poucos metros quadrados e muitas vezes dividem espaço com outros tantos animais. Muitas pessoas se dirigem à ONGS e Protetores achando que sempre cabe mais um, afinal para quem tem tantos, pode muito bem acolher só mais esse. Você sabia que essas pessoas recebem dezenas de pedidos como o seu por dia? E se aceitassem apenas um, de algum amigo ou conhecido por dia, no final de um ano teriam mais 365 animais?
Cuidados, espaço... quem só se deixa levar pela emoção e se esquece do básico para o acolhimento digno de um animal acaba virando um colecionador, ou acumulador, que traz mais problemas do que benefícios para a sociedade e para a integridade física do animal. Essas pessoas que não sabem falar “não”, e não conhecem os seus limites acabam adoecendo, se isolando do mundo, comprometendo suas contas bancárias, sua família e desenvolvendo um desequilíbrio mental. Cuidador doente, tem animais doentes, maltratados, famintos, sujos e histéricos. É esse o destino que você quer para aquele animal que encontrou na rua?
Então chegamos ao ponto: A eficiência de uma pessoa que trabalha na causa animal não deve ser medida apenas pelo número de animais que ela acolhe, mas sim pelo número de pessoas que ela conseguiu fazer com que tomassem esta atitude.
Ajudar os animais é fazer a sua parte! Precisamos de gente de atitude. Quer ajudar? Resgate, cuide, castre e doe, mas faça esse processo até o fim.
Resgatou? Fotografe, conte o que você fez e conseguirá muitas pessoas para ajudá-lo. Você não tem lugar em casa? Arrume um cantinho provisório, uma lavanderia, um banheiro. É mais do que aquele animal tinha na rua, e provavelmente o mesmo que ele ia encontrar na casa de um Protetor.
Cuide. Leve ao veterinário, relate o seu caso. Você vai se surpreender com a quantidade de pessoas do bem que vai encontrar para te apoiar.
Castre. Isso é essencial! Impede novos abandonos e que mais e mais animais se multipliquem. Você realmente acha que precisa de mais cachorro e gato no mundo? Para cada cão que tem um lar, presume-se que há 10 nas ruas. Temos que conter essa superpopulação!
Doe! A doação exige paciência, pois pode demorar um pouco. Tire fotos bonitas, em ambientes agradáveis, anuncie nas redes sociais, conte a história daquele animal, fale com amigos, espalhe cartazes e com certeza você vai encontrar um lar para seu protegido.

Corremos o risco de não agradar algumas pessoas, mas não estamos focados nelas. Nossa atenção é para as pessoas do bem, que realmente querem fazer alguma coisa. Acreditamos que a maioria das pessoas são boas, só que muitas vezes ficam de braços cruzados, ou paralisadas pelo pessimismo e não conseguem agir. São as que acham que o mundo não tem solução, que não adianta tirar um cão das ruas, ou adotar, já que animais abandonados existem aos milhares. São essas pessoas que queremos estimular a ajudar. Um animal em sofrimento pode mobilizar grandes grupos e a internet é uma grande ferramenta para fazer o bem, quando é usada com inteligência e responsabilidade. Não se deixe ficar apenas na fase da indignação e do sofrimento. Vamos partir para a ação?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Onde está o abandono?


Existe uma comoção geral quando se fala em cão abandonado nas ruas. As pessoas fotografam o animal, que as vezes está machucado, doente, faminto, com apelos “AJUDE POR FAVOR” e postam nas redes sociais. Imediatamente há dezenas de comentários e outros tantos compartilhamentos até que chega a notícia “FOI RESGATADO!”. Mais algumas dezenas de mensagens de incentivo e muitos “PARABÉNS E GRAÇAS A DEUS” depois, e o suposto caso COM FINAL FELIZ é arquivado. Mais um caso de abandono e maus tratos resolvido!

Resolvido? Me desculpem meus amigos, mas essa história está apenas começando. Encontrar um animal precisando de socorro é fácil nesta sociedade em que vivemos. Eles são atirados de carros em movimento, amarrados em árvores, portões, jogados em bueiros, agredidos de todas as formas. Basta uma volta no quarteirão, um olhar mais atento e...lá está ele! Porém não é herói, e nem fez a sua parte quem achou um animal na rua, fotografou e pediu para uma ONG ir lá resgatar. O resgate não é o fim de uma história triste, é apenas o começo de outra.

Neste domingo teve Evento de Adoção do Cão sem Fome em parceria com o Instituto CIMAS. Infelizmente nenhum cãozinho foi adotado. Levamos cães saudáveis, meigos, brincalhões, vítimas do abandono e do pouco caso do ser humano. Alguns mais tímidos devido aos maus tratos sofridos, outros alegres, que não têm a mínima noção do perigo que corriam antes de chegarem até nós. No entanto, ninguém se interessou por nenhum deles.

Se o abandono incomoda quando está nas ruas, também devia incomodar quando milhares de cães passam a vida inteira em um abrigo, porque ninguém lhes dá uma chance.

A vida em muitos Abrigos, ONGS ou pior, na casa de Acumuladores, é igualmente cruel quanto o abandono nas ruas, mas esse abandono é invisível à toda uma sociedade. Afinal, o que interessa é tirar o cão da rua, dos olhos de todos... Animal agonizando, machucado, faminto, incomoda, é ruim de olhar e faz mal para o coração das pessoas.

Eu gostaria de ver as mesmas pessoas terem esse sentimento para com os milhares de animais abandonados em ONGS e Abrigos por aí. Animais que vivem em espaços minúsculos e muitas vezes passam fome, pois é dado apenas o mínimo de alimento necessário para sobreviverem. Animais que morrem de doenças, que podem ser evitadas por vacinação, porque o local não tem verba para vacinar. Animais que passam a vida toda disputando espaço com outras dezenas de animais, sem carinho e sem atenção.
Isso também é abandono! Mas não choca e não entristece porque não faz parte do cotidiano das pessoas. Com o resgate eles se tornam invisíveis para a sociedade e viram um problema para quem acolheu. Um cão vive 10 anos ou mais. Precisa de cuidados, limpeza, comida, remédios, vacina, castração. Isso custa caro para você? Imagina para as ONGS que tem dezenas desses e recebe pedidos de socorro todos os dias.

Então, se você quer fazer a diferença na vida de um animal abandonado. Faça o resgate, castre, vacine, cuide e encontre um lar para ele. Não tente transferir essa responsabilidade para uma ONG, Protetor, ou quem quer que seja. Não pode arcar com tudo isso? Então adote um animal de uma ONG ou Projeto. Eles já fizeram a parte deles. Agora é a sua vez de dar oportunidade a um animal carente. Para cada cãozinho que é adotado, outro pode ser resgatado, significa que você estará salvando pelo menos duas vidas.


Não podemos achar normal a superlotação dos Abrigos de Animais. Abrigo não pode ser aceito pela sociedade como solução. Abrigo é um lar temporário, que infelizmente está virando definitivo para milhares de animais que crescem e morrem sem nunca conhecer o que é uma família. Abandono acontece nas ruas, mas também acontece entre as 4 paredes dos Abrigos. Pense nisso! DIGA NÃO A QUALQUER FORMA DE ABANDONO, ADOTE!


domingo, 24 de janeiro de 2016

Mudança da D Nilza

Ontem fizemos a mudança da D Nilza, mas para você entender porque isso é importante, vou contar um pouquinho dessa história. Há dois anos recebemos um apelo para uma Protetora que estava passando fome com mais de 100 animais. Fui pessoalmente conferir e voltei para casa com a sensação que não podíamos deixar de socorre-la, apesar de nossas dificuldades. A D Nilza é uma mulher muito sozinha, à beira de se tornar uma acumuladora de animais, sem estrutura nenhuma, nem emocional, nem psicológica.  
Lançamos uma campanha, a ajuda veio de várias partes e começamos a doar ração mensalmente para ela. Além da ração, os cães precisavam de vacinação, atendimento veterinário e algumas castrações e isso foi realizado com veterinários voluntários. Porém existia uma ameaça muito maior: A protetora estava prestes a perder o terreno onde morava. Tentamos conseguir um local para ela e para os animais, mas foi impossível. Como todos imaginam, as ONGS e mesmo o CCZ estão superlotados. O que mais nós ouvíamos era “solta os animais na rua e eles se viram”. Como assim? Eram idosinhos, adultos, filhotes, vítimas do abandono e maus tratos! Se não lutássemos por eles, quem lutaria? Foi essa batalha que eu comprei, pessoalmente e encontrei muitas dificuldades, até mesmo dentro do Projeto. Muitas pessoas me diziam que o problema era grande demais e não tinha solução. Alguns colaboradores se afastaram porque não conseguiam lidar com isso. Achavam difícil se apegar aos animais e talvez ver todos abandonados novamente, ou pior...  Mas o que eu podia fazer, se a esta altura eu já estava apaixonada por todos eles? E disposta a fazer qualquer coisa para salva-los? Montei então um plano de ação a longo prazo e colocamos em prática.
A primeira etapa foi colocar para adoção todos os animais que tinham uma mínima chance. Esses todos foram adotados. Sobraram os cães e gatos idosos, adultos e deficientes que sabíamos que iam ficar conosco. Cuidamos da saúde de todos, com vacinação, vermífugo, atendimento intensivo com veterinários e vitaminas para suprir o tempo de maus tratos e fome que passaram. Logo estavam gordinhos, saudáveis, e prontos para irem para qualquer lugar. O comportamento deles era arredio e muitas vezes agressivo, por causa dos maus tratos que sofreram. Então fizemos uma ação intensiva de “doar carinho”. Quinzenalmente visitávamos o Quintal para dar amor, cuidar dos doentes, pegar no colo, abraçar e beijar. Aos poucos os animais foram ficando mais dóceis e acessíveis.
A Protetora também precisava de apoio. Nas nossas idas levávamos cesta básica, comidas caseiras, repartindo o que estava na nossa casa, com a mensagem “fiz essa coisa gostosa e lembrei de você”. Comemoramos o primeiro bolo de aniversário que ela teve na vida, a primeira vez que comeu peru no Natal e provou palmito e azeitonas. Levamos pequenos presentes necessários, sabonetes, roupas, calçados, toalhas, lençóis, mas os presentes principais eram a nossa presença, constante e pontual e a certeza de que “você não está sozinha”.
Paralelamente a procura era por uma solução para a habitação. A única saída encontrada foi investir em um terreno abandonado que a Protetora conseguiu no processo. Em uma comunidade, sem água, luz, acesso difícil, mato... era um cenário desolador.  Para uma pessoa mudar é só conseguir 4 paredes e um telhado, mas para cães e gatos, a história é outra. Cães precisam ser reagrupados em matilhas para não brigarem, gatos precisam de gatil... Então o foco agora era ajudar a construir os alojamentos dos animais,, pois o dinheiro que a D Nilza recebeu de indenização dava para pouca coisa. Neste momento o apoio de nossos padrinhos foi fundamental. Muitos dos nossos animais têm padrinhos atuantes e fiéis que não ignoraram nosso apelo e com essas doações e muita coragem, começamos a obra. Para terminar fizemos bazares, campanhas, vendemos calendários e colocamos a mão no bolso também.  Voluntários e colaboradores começaram a doar o que faltava para terminar os canís e neste dia 23 de janeiro, alcançamos o inimaginável: D Nilza mudou com 120 animais, para uma casa simples, 6 canís e gatil. Uma batalha vencida pelo Cão sem Fome, mas uma vitória de todos nós.
Quando olho para trás e vejo essa trajetória só penso que ganhei mais do que doei. Ganhei em sabedoria, paciência e resiliência, além da certeza que todos temos algo a aprender e algo a ensinar. Trabalhamos por um mundo melhor e acredito que quem precisa de ajuda são pessoas assim em lugares assim. Lugares distantes, caóticos, sem estrutura, que ninguém quer ir e pessoas com quem ninguém sabe lidar. Pessoas simples, que levam o rótulo de "acumuladores de animais", de "loucas" e não tem ninguém que as ouça, que as oriente e ajude. São pessoas brutalizadas, que são julgadas o tempo todo e acabam teimosas, desenvolvendo manias, impossibilitando o diálogo. Gente assim é difícil de ajudar, não é? Gente assim, já perdeu até a sua crença na humanidade e muitas vezes não aceita ajuda. São arredios, desconfiados, perdidos e por isso mesmo ficam marginalizados, abandonados no mundo, junto com os animais que carregam. Animais que não tem outra opção, porque também estão fora dos padrões que as pessoas querem ajudar: São grandes, pretos, velhos, deficientes, vira latas sem nenhum atrativo, que só são amados e cuidados por sua Protetora, tão carente ou mais do que eles.
Quando me falavam porque se meter em uma encrenca deste tamanho eu sempre dizia: Se não formos por eles? Quem será?  Quando falam que o Cão sem Fome só ajuda animais, enquanto tem tanta gente precisando no mundo, não sabem que por traz desses animais há pessoas, invisíveis para toda uma sociedade, que prestam um serviço importante de acolhimento de animais abandonados, mesmo com seu mínimos recursos.

Para D Nilza e todos os Protetores de Animais, o meu respeito. Para todos que ajudam os animais, sem distinção, sem julgamento, minha admiração. Para todos que acreditaram no trabalho do Cão sem Fome, meu agradecimento. Para aqueles que não abandonaram o barco, que trabalharam duro para esse desfecho, meu carinho.
E para mim, a maior recompensa é ver a alegria desses peludinhos, hoje abrigados e protegidos, que enquanto tivermos a ajuda de vocês nunca vamos abandonar.

Glaucia Lombardi


Fundadora do Cão sem Fome

Fotos na casa Antiga, quando começamos a nossa "Doação de carinho".


















Fotos da mudança