quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Coluna da Dra. Tatti: Crueldade no Aniversário de São Paulo

Nessa louca metrópole de hábitos, culturas, personalidades e pessoas tão diferentes, meu coração se encheu de ódio, expectativa, medo, compaixão, esperança, solidariedade e, por fim, tristeza.

Era meu dia folga e o telefone tocou. Era Mariana, nossa dedicada plantonista, relatando que tinha acabado de atender um cão esfaqueado trazido por um carroceiro. O homem, com toda franqueza, se antecipou em dizer que não tinha condição para pagar, mas que havia levado o animal porque não poderia deixá-lo naquela situação. Ele precisava de socorro. Ao ouvir aquela história eu também precisava de socorro, além de coragem para enfrentar a situação e lidar com uma das coisas mais difíceis para mim: a crueldade do homem contra um animal.
Confesso que subi as escadas da clínica morrendo de medo do que iria encontrar. Já sabia que a situação era crítica mas, ao entrar na sala, tudo pareceu ainda pior. Não vou detalhar o estado daquele cão e nem postar fotos de tamanha crueldade. Prefiro poupá-los desses detalhes. Sr. Carlos, o carroceiro, chamava de Alemão o cão que o acompanhava pelas ruas. Perguntei quando o tinha encontrado naquele estado, se o cão estava andando e se tinha se alimentado. A resposta do Sr. Carlos me causou mais dor. “Ele comeu sim. Não comi toda a marmita de manhã e a dividi com ele”, disse.
Expliquei que faríamos o possível. Alemão já estava medicado e o próximo passo seria a cirurgia. Sr. Carlos saiu da sala e disse que ficaria esperando do lado de fora, fumando seu cigarro.
Foram aproximadamente três horas de cirurgia. Anestesiado, Alemão não sentia mais dor. Eu também estava mais calma e confiante. Afinal, Alemão teria até um lar provisório graças a minha amiga Janaína e ao projeto Salva Cão. O ferimento maior era na cabeça: Alemão estava sem uma orelha e, num primeiro momento, não sabíamos por onde começar. Com o apoio fundamental da Mariana, fiz pouco a pouco o meu melhor. Cirurgia finalizada, tudo certo! Fizemos uma bandagem nos ferimentos para proporcionar mais conforto e liguei para minha amiga Janaína para dizer que tudo corria bem. Faltava apenas esperar Alemão acordar para eu o levar até seu lar provisório. Pedi para a recepcionista avisar ao Sr. Carlos que Alemão não poderia voltar para a rua naquele momento. Falei que a clínica em que ele se hospedaria era em Perdizes. O carroceiro achou bom por ser perto de onde ele fica. Assim poderia visitá-lo.
Alemão ainda estava entubado, coração batendo, respiração normal. De repente, os batimentos foram espaçando… Mais uma vez fizemos tudo o que podíamos.  Levamos mais de meia hora para aceitar que ele não voltaria mais. Alemão devia ser velhinho porque mal tinha dentes. Eu não me conformava. Ele não poderia nos deixar depois de tudo o que fizemos. Não era justo comigo, não era justo com aquele homem que o esperava ansiosamente. Saí da sala e chamei pelo Sr. Carlos. Falei que havíamos feito de tudo, mas que Alemão não tinha resistido. O senhor quis vê-lo para se despedir. E então voltou ao meu encontro, me deu um beijo na testa, um abraço forte e disse: “Obrigada, minha filha. Que Deus te abençoe”.
Fui para casa arrasada, mas tive uma casa para onde ir. Pude tomar um banho, comer e então deitar em minha cama. Mas e aquele homem? Estaria na rua novamente, sem consolo, sem casa, dividindo sua comida com os amigos de quatro patas. Porque ele disse que ainda tinha muitos! E essa história não me sai da cabeça. Queria poder abraçar o Sr. Carlos novamente e dizer que ainda me importo com ele, que ainda sinto pelo Alemão.
No final da semana ouvi algo que me confortou.  Minha psicanalista disse que uma vez ouviu que nós ”apenas morremos para ir para o céu”, ou que “apenas vivemos para ir para o céu”. E como um último conforto, disse que eu preparei o Alemão para chegar ao céu em melhores condições. Prefiro acreditar que sim! Alemão foi para o céu em melhores condições e não sofre mais. Mas e como será a vida do diversos senhores Carlos que existem por aí, vagando pelas cidades na companhia de seus cães?
Dra. Tatti
Por essa e por tantas outras mil histórias semelhantes a esta que acontecem todos os dias é que não podemos desistir, deixar de lutar e brigar por aqueles que nada podem fazer por si mesmos!!! Do mesmo modo que há inúmeros malfeitores que agridem, maltratam, abusam e matam animais, há também inúmero D. Cecílias, Penhas, Terezinhas, Cidas... E é por ter convicção de que o bem é superior e vence o mal é que nossa luta tem que ser constante e se fortalecer cada vez mais na direção de exercer e exigir que os direitos dos animais sejam cumpridos e respeitados.
Dra. Tatti, seu lugarzinho no céu está garantido e certamente, cheio de bichinhos gratos, te aguardando!..
Equipe Cão Sem Fome

5 comentários:

  1. Claro que me acabei de chorar. Conheci vários Srs Carlos durante e minha vida, mas poucos veterinários que ainda tem a capacidade de se emocionar com suas situações.
    Obrigada Tati, por estar conosco nessa luta.
    Ela realmente começa no coração, e o resultado nem sempre importa. O que importa é a nossa trajetória. BJS

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  2. Eu me emociono muito com histórias sobre cães...são tantas, umas engraçadas, outras triste, felizes, trágicas....Mas nunca conheci nenhuma veterinária que me emocionasse tanto...Que Deus te conserve sempre com essa pureza dra Tatti, porque só os puros sofrem com o sofrimento do próximo. O seu lugar, não sei ao certo onde está reservado, mas uma coisa eu tenho a mais absoluta certeza, ele é dentro do coração desses bichinhos....Muito obrigada por fazer parte de nossas vidas e principalmente por morar no coração desses 101 peludos que estão sob seus cuidados....Bjão.

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    1. Rô, vou aproveitar esse espaço para agradecer novamente por suas palavras. Você é muito querida e especial. E minha admiração é eterna.
      Beijos,
      Tatti

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  3. Dra. Tatti, que história trágica e ao mesmo tempo de uma beleza singular...
    Enquanto lia me acabei de chorar, e só não chorei mais porque a peluda Beca não me deixa chorar, se atira em mim e me dá um banho de lambidas.
    Penso que o pobre Alemão foi aliviado na sua dor, e isso é muita, muita coisa. Penso que o sr. Carlos recebeu muito de você: uma mensagem poderosa de que vale a pena lutar por si e por quem a gente ama; e que ele não é o único a pensar assim. Tenho certeza que a vida do sr. Carlos, seja ela como for, foi ressignificada por essa experiência, e que ele nunca esquecerá disso, com tristeza, mas com uma cota de fé no humano, em meio a tanta crueldade.
    Solange (mãe da Beca)

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    1. Solange, assim espero!
      Infelizmente lido com muitas histórias tristes. Em contrapartida, outras me enchem de alegria como a sua e da Beca!
      Beijos,
      Tatti

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