domingo, 24 de janeiro de 2016

Mudança da D Nilza

Ontem fizemos a mudança da D Nilza, mas para você entender porque isso é importante, vou contar um pouquinho dessa história. Há dois anos recebemos um apelo para uma Protetora que estava passando fome com mais de 100 animais. Fui pessoalmente conferir e voltei para casa com a sensação que não podíamos deixar de socorre-la, apesar de nossas dificuldades. A D Nilza é uma mulher muito sozinha, à beira de se tornar uma acumuladora de animais, sem estrutura nenhuma, nem emocional, nem psicológica.  
Lançamos uma campanha, a ajuda veio de várias partes e começamos a doar ração mensalmente para ela. Além da ração, os cães precisavam de vacinação, atendimento veterinário e algumas castrações e isso foi realizado com veterinários voluntários. Porém existia uma ameaça muito maior: A protetora estava prestes a perder o terreno onde morava. Tentamos conseguir um local para ela e para os animais, mas foi impossível. Como todos imaginam, as ONGS e mesmo o CCZ estão superlotados. O que mais nós ouvíamos era “solta os animais na rua e eles se viram”. Como assim? Eram idosinhos, adultos, filhotes, vítimas do abandono e maus tratos! Se não lutássemos por eles, quem lutaria? Foi essa batalha que eu comprei, pessoalmente e encontrei muitas dificuldades, até mesmo dentro do Projeto. Muitas pessoas me diziam que o problema era grande demais e não tinha solução. Alguns colaboradores se afastaram porque não conseguiam lidar com isso. Achavam difícil se apegar aos animais e talvez ver todos abandonados novamente, ou pior...  Mas o que eu podia fazer, se a esta altura eu já estava apaixonada por todos eles? E disposta a fazer qualquer coisa para salva-los? Montei então um plano de ação a longo prazo e colocamos em prática.
A primeira etapa foi colocar para adoção todos os animais que tinham uma mínima chance. Esses todos foram adotados. Sobraram os cães e gatos idosos, adultos e deficientes que sabíamos que iam ficar conosco. Cuidamos da saúde de todos, com vacinação, vermífugo, atendimento intensivo com veterinários e vitaminas para suprir o tempo de maus tratos e fome que passaram. Logo estavam gordinhos, saudáveis, e prontos para irem para qualquer lugar. O comportamento deles era arredio e muitas vezes agressivo, por causa dos maus tratos que sofreram. Então fizemos uma ação intensiva de “doar carinho”. Quinzenalmente visitávamos o Quintal para dar amor, cuidar dos doentes, pegar no colo, abraçar e beijar. Aos poucos os animais foram ficando mais dóceis e acessíveis.
A Protetora também precisava de apoio. Nas nossas idas levávamos cesta básica, comidas caseiras, repartindo o que estava na nossa casa, com a mensagem “fiz essa coisa gostosa e lembrei de você”. Comemoramos o primeiro bolo de aniversário que ela teve na vida, a primeira vez que comeu peru no Natal e provou palmito e azeitonas. Levamos pequenos presentes necessários, sabonetes, roupas, calçados, toalhas, lençóis, mas os presentes principais eram a nossa presença, constante e pontual e a certeza de que “você não está sozinha”.
Paralelamente a procura era por uma solução para a habitação. A única saída encontrada foi investir em um terreno abandonado que a Protetora conseguiu no processo. Em uma comunidade, sem água, luz, acesso difícil, mato... era um cenário desolador.  Para uma pessoa mudar é só conseguir 4 paredes e um telhado, mas para cães e gatos, a história é outra. Cães precisam ser reagrupados em matilhas para não brigarem, gatos precisam de gatil... Então o foco agora era ajudar a construir os alojamentos dos animais,, pois o dinheiro que a D Nilza recebeu de indenização dava para pouca coisa. Neste momento o apoio de nossos padrinhos foi fundamental. Muitos dos nossos animais têm padrinhos atuantes e fiéis que não ignoraram nosso apelo e com essas doações e muita coragem, começamos a obra. Para terminar fizemos bazares, campanhas, vendemos calendários e colocamos a mão no bolso também.  Voluntários e colaboradores começaram a doar o que faltava para terminar os canís e neste dia 23 de janeiro, alcançamos o inimaginável: D Nilza mudou com 120 animais, para uma casa simples, 6 canís e gatil. Uma batalha vencida pelo Cão sem Fome, mas uma vitória de todos nós.
Quando olho para trás e vejo essa trajetória só penso que ganhei mais do que doei. Ganhei em sabedoria, paciência e resiliência, além da certeza que todos temos algo a aprender e algo a ensinar. Trabalhamos por um mundo melhor e acredito que quem precisa de ajuda são pessoas assim em lugares assim. Lugares distantes, caóticos, sem estrutura, que ninguém quer ir e pessoas com quem ninguém sabe lidar. Pessoas simples, que levam o rótulo de "acumuladores de animais", de "loucas" e não tem ninguém que as ouça, que as oriente e ajude. São pessoas brutalizadas, que são julgadas o tempo todo e acabam teimosas, desenvolvendo manias, impossibilitando o diálogo. Gente assim é difícil de ajudar, não é? Gente assim, já perdeu até a sua crença na humanidade e muitas vezes não aceita ajuda. São arredios, desconfiados, perdidos e por isso mesmo ficam marginalizados, abandonados no mundo, junto com os animais que carregam. Animais que não tem outra opção, porque também estão fora dos padrões que as pessoas querem ajudar: São grandes, pretos, velhos, deficientes, vira latas sem nenhum atrativo, que só são amados e cuidados por sua Protetora, tão carente ou mais do que eles.
Quando me falavam porque se meter em uma encrenca deste tamanho eu sempre dizia: Se não formos por eles? Quem será?  Quando falam que o Cão sem Fome só ajuda animais, enquanto tem tanta gente precisando no mundo, não sabem que por traz desses animais há pessoas, invisíveis para toda uma sociedade, que prestam um serviço importante de acolhimento de animais abandonados, mesmo com seu mínimos recursos.

Para D Nilza e todos os Protetores de Animais, o meu respeito. Para todos que ajudam os animais, sem distinção, sem julgamento, minha admiração. Para todos que acreditaram no trabalho do Cão sem Fome, meu agradecimento. Para aqueles que não abandonaram o barco, que trabalharam duro para esse desfecho, meu carinho.
E para mim, a maior recompensa é ver a alegria desses peludinhos, hoje abrigados e protegidos, que enquanto tivermos a ajuda de vocês nunca vamos abandonar.

Glaucia Lombardi


Fundadora do Cão sem Fome

Fotos na casa Antiga, quando começamos a nossa "Doação de carinho".


















Fotos da mudança









quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Abandono de animais – Esse problema também é seu.

Final de ano, festas e férias, são o terror da Proteção Animal, quando milhares de animais são abandonados pelos seus tutores.
A causa é que eles querem se “divertir”, “passear”, “viajar” e seus animais atrapalham ou se tornam um problema. Abandonar é mais fácil. Na volta compram ou adotam outro se não acharem o animal deixado para trás e no final do ano farão a mesma coisa novamente.
Mas porque se abandona tanto? Podemos dizer que é crueldade, claro, mas uma reflexão menos superficial aponta para um problema muito maior, que é cultural e educacional. O abandono se dá em todas as classes sociais. Engana-se quem pensa que é um hábito de pessoas ignorantes, no sentido acadêmico da palavra. Pessoas cultas, estudadas, com bons empregos e situação financeira estável abandonam. Pessoas de baixa renda também abandonam, então o abandono está ligado mais ao caráter e à formação do indivíduo.

Listamos aqui algumas situações muito comuns:

- Muitas pessoas vêm de uma cultura onde o animal existia para servir ao homem. Na zona rural principalmente esse pensamento é mais constante. As pessoas têm “criação”: porcos, galinhas, gatos, cães, que comem restos, vivem ao relento, no meio do mato e sem cuidados especiais. Não há vacinas, castração, alimentação balanceada, nem laços afetivos. Eles apenas compartilham o mesmo espaço que as pessoas que lá habitam. Pessoas criadas nessa situação, continuam com essa visão dos animais como “coisas descartáveis” e sem importância, que podem ser deixados para trás porque “se viram”.

- Há também a cultura do “mundo cão”. A pessoa trabalha o ano todo, pega transito, paga contas, cuida de filhos, casamento, família, atura o chefe e vive em constante stress. Essas pessoas acham que “têm o direito de se divertir” e não é um cachorro que vai impedi-las. Se fazem de coitadas e têm a certeza que a vida é muito cruel e desumana com elas, por isso podem agir assim.

- Outras pessoas não conseguem incluir um animal nas mudanças de sua vida e não querem se dar ao trabalho de encontrar um novo tutor para ele. Essas sempre se fazem de vítimas da situação, como se estivessem de coração partido e não tivessem outra opção. Opções existem aos montes, mas elas só enxergam a saída mais fácil.

- Existe também uma defasagem educacional. A forma de se enxergar os animais mudou muito nos últimos anos, mas isso ainda é muito recente. A educação dada aos adultos de hoje, na infância, não focava na qualidade de vida e respeito aos animais. Não existia uma preocupação acadêmica em formar indivíduos conscientes e preocupados com o meio ambiente. Isso formou pessoas que pensam até hoje que, a preservação das espécies, controle do lixo, economia de água e proteção animal não são problemas delas.

- E claro, existe o desvio de caráter e a crueldade. Os alvos mais frequentes de crueldade são os cães (76%) seguidos pelos gatos (19%). Estudos em vários países apontam que há uma conexão entre crueldade contra animais e violência humana. Um quarto de todos os casos de crueldade contra animais proposital, envolve também alguma forma de violência familiar, abusos contra crianças, mulheres ou idosos. Só este dado já deveria despertar mais a atenção sobre a questão do abandono, pois é um alerta para a probabilidade de outros casos de violência doméstica naquela família. A crueldade contra animais também está presente como uma característica comum nos registros de estupradores e assassinos. O abuso contra animais aparece de forma clara nas histórias de pessoas com comportamento violento. Portanto a violência doméstica e os desvios sociais de conduta começam muitas vezes com os maus tratos e abandono de animais.

O abandono e a crueldade contra animais não devem ser ignorados, mas encarados como a manifestação de uma agressividade latente, que pode demonstrar sinais de um comportamento violento e desprezível contra humanos.
Tanto as crianças como os animais são vítimas silenciosas e muitas vezes invisíveis. São indicadores de um lar que merece um olhar atento de uma sociedade, onde pessoas e animais podem estar em risco. Tal abuso deve ser percebido, documentado e denunciado, pois isso pode ser definido também como violência doméstica, além de crime de abandono que já é previsto em legislação.


Portanto, o abandono é sim um problema seu. Não só porque você não quer ver um animal agonizando nas ruas ou estradas, porque isso incomoda, é feio e irrita até quem não curte cachorro. Mas porque é um indicador muito sério de comportamentos inaceitáveis para a sociedade que queremos construir. Queremos mudanças? Então precisamos ter um olhar mais atento para pequenas atitudes. Não é só um cachorro, é uma vida e um indicador que tem algo muito errado no ar.


Glaucia Lombardi é fundadora do Projeto Cão sem Fome

Leia mais a respeito:
http://www.apasfa.org/futuro/conexao.shtml
https://blogcontraatauromaquia.wordpress.com/2015/06/10/fbi-serial-killers-x-violencia-c-animais/
http://www.pea.org.br/denunciar.htm
http://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/lenoticia2.php?id=243927