quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Abandono de animais – Esse problema também é seu.

Final de ano, festas e férias, são o terror da Proteção Animal, quando milhares de animais são abandonados pelos seus tutores.
A causa é que eles querem se “divertir”, “passear”, “viajar” e seus animais atrapalham ou se tornam um problema. Abandonar é mais fácil. Na volta compram ou adotam outro se não acharem o animal deixado para trás e no final do ano farão a mesma coisa novamente.
Mas porque se abandona tanto? Podemos dizer que é crueldade, claro, mas uma reflexão menos superficial aponta para um problema muito maior, que é cultural e educacional. O abandono se dá em todas as classes sociais. Engana-se quem pensa que é um hábito de pessoas ignorantes, no sentido acadêmico da palavra. Pessoas cultas, estudadas, com bons empregos e situação financeira estável abandonam. Pessoas de baixa renda também abandonam, então o abandono está ligado mais ao caráter e à formação do indivíduo.

Listamos aqui algumas situações muito comuns:

- Muitas pessoas vêm de uma cultura onde o animal existia para servir ao homem. Na zona rural principalmente esse pensamento é mais constante. As pessoas têm “criação”: porcos, galinhas, gatos, cães, que comem restos, vivem ao relento, no meio do mato e sem cuidados especiais. Não há vacinas, castração, alimentação balanceada, nem laços afetivos. Eles apenas compartilham o mesmo espaço que as pessoas que lá habitam. Pessoas criadas nessa situação, continuam com essa visão dos animais como “coisas descartáveis” e sem importância, que podem ser deixados para trás porque “se viram”.

- Há também a cultura do “mundo cão”. A pessoa trabalha o ano todo, pega transito, paga contas, cuida de filhos, casamento, família, atura o chefe e vive em constante stress. Essas pessoas acham que “têm o direito de se divertir” e não é um cachorro que vai impedi-las. Se fazem de coitadas e têm a certeza que a vida é muito cruel e desumana com elas, por isso podem agir assim.

- Outras pessoas não conseguem incluir um animal nas mudanças de sua vida e não querem se dar ao trabalho de encontrar um novo tutor para ele. Essas sempre se fazem de vítimas da situação, como se estivessem de coração partido e não tivessem outra opção. Opções existem aos montes, mas elas só enxergam a saída mais fácil.

- Existe também uma defasagem educacional. A forma de se enxergar os animais mudou muito nos últimos anos, mas isso ainda é muito recente. A educação dada aos adultos de hoje, na infância, não focava na qualidade de vida e respeito aos animais. Não existia uma preocupação acadêmica em formar indivíduos conscientes e preocupados com o meio ambiente. Isso formou pessoas que pensam até hoje que, a preservação das espécies, controle do lixo, economia de água e proteção animal não são problemas delas.

- E claro, existe o desvio de caráter e a crueldade. Os alvos mais frequentes de crueldade são os cães (76%) seguidos pelos gatos (19%). Estudos em vários países apontam que há uma conexão entre crueldade contra animais e violência humana. Um quarto de todos os casos de crueldade contra animais proposital, envolve também alguma forma de violência familiar, abusos contra crianças, mulheres ou idosos. Só este dado já deveria despertar mais a atenção sobre a questão do abandono, pois é um alerta para a probabilidade de outros casos de violência doméstica naquela família. A crueldade contra animais também está presente como uma característica comum nos registros de estupradores e assassinos. O abuso contra animais aparece de forma clara nas histórias de pessoas com comportamento violento. Portanto a violência doméstica e os desvios sociais de conduta começam muitas vezes com os maus tratos e abandono de animais.

O abandono e a crueldade contra animais não devem ser ignorados, mas encarados como a manifestação de uma agressividade latente, que pode demonstrar sinais de um comportamento violento e desprezível contra humanos.
Tanto as crianças como os animais são vítimas silenciosas e muitas vezes invisíveis. São indicadores de um lar que merece um olhar atento de uma sociedade, onde pessoas e animais podem estar em risco. Tal abuso deve ser percebido, documentado e denunciado, pois isso pode ser definido também como violência doméstica, além de crime de abandono que já é previsto em legislação.


Portanto, o abandono é sim um problema seu. Não só porque você não quer ver um animal agonizando nas ruas ou estradas, porque isso incomoda, é feio e irrita até quem não curte cachorro. Mas porque é um indicador muito sério de comportamentos inaceitáveis para a sociedade que queremos construir. Queremos mudanças? Então precisamos ter um olhar mais atento para pequenas atitudes. Não é só um cachorro, é uma vida e um indicador que tem algo muito errado no ar.


Glaucia Lombardi é fundadora do Projeto Cão sem Fome

Leia mais a respeito:
http://www.apasfa.org/futuro/conexao.shtml
https://blogcontraatauromaquia.wordpress.com/2015/06/10/fbi-serial-killers-x-violencia-c-animais/
http://www.pea.org.br/denunciar.htm
http://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/lenoticia2.php?id=243927


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente!